A conversa era para ser sobre governos, do PT, que se discute se o de Lula é o mais corrupto da história ou se é apenas parelho com anteriores e na Barra do Quaraí não se fala em roubalheira; dos tucanos, em Uruguaiana e no Estado, embora bem distintos, o Caso DETRAN, as chuvas, a enchente, as eleições de 2010, as de 2012, mas o capricho da apresentação da salada de tomate e cebola, o pão, a salsa, com certeza a carne, que veio farta e escorrendo sangue e com um sabor de antigamente, fizeram o tempo parar naquela mesa, simples como o lugar, Los Amigos, em Bella Unión, um carramanchão forte, aberto, de chão batido, um cusco a uns cinco metros dos clientes numa espera elegante (porque cheia de paciência e incerteza), o banheiro lá no fundo de um labirinto de caixas e móveis da casa do assador e proprietário, acho que pai da graciosa garçonete, que garantiu que o vinho em taça que servem "es mejor que lo Carrau", acho que tinha razão, tudo, até o mormaço da tarde que já precipitava escolares em seus alvos aventais ajudou para que, da menor faísca de alguma conversa vaga, se acendesse a narrativa abaixo. Com o respeito de quem fala sobre pessoas já mortas, Marcelo Ribeiro nos deu, a mim, ao Rafael Borne e ao vereador Charão (DEM), da Barra, uma bela passagem que fala em (falta de) lealdade, gratidão e coragem, e que ilumina a face de um homem na eclosão do movimento que o consagraria como mito - indevidamente, sempre achei.
- Não só não queria como agiu contra a revolução! Quando o Flores e o Oswaldo Aranha foram até ele, no Piratini, apelando que assumisse a liderança do movimento, Getúlio escutou-os, e aceitou, mas ponderou-lhes que precisavam ouvir Borges de Medeiros antes de qualquer atitude. (Ninguém poderia iniciar uma revolução sem o beneplácito do Dr. Antônio Augusto Borges de Medeiros, que era o presidente do Partido Republicano Rio-grandense, o PRR, e uma espécie de oráculo daquela geração, embora afastado do poder desde 1928, quando entregara a Getúlio a Presidência do Estado.) Imediatamente, ambos pegaram o trem rumo a Caçapava do Sul, onde passara a residir Borges. No meio da viagem, desconfiaram dum passageiro, e, ali mesmo, no trem, chamaram-lhe às claras (com a delicadeza com que o general Flores da Cunha costumava resolver tais situações), e o infeliz confessou: fora enviado por Getúlio para chegar a Borges antes que eles e transmitir o apelo de que lhes dissesse um peremptório não. (Getúlio blefara com velhos companheiros!) Neutralizado o emissário da secreta mensagem, Borges deu a Oswaldo Aranha e Flores da Cunha o seu apoio. No mesmo dia, 03 de outubro de 1930, a notícia chegaria a Porto Alegre e levaria Getúlio Dornelles Vargas deflagar, como líder maior, a Revolução de 30. Naquele dia, escreveu a primeira anotação do diário pessoal que manteria até 1942, revelando dúvidas e incertezas que tornam indisfarçável sua tibieza - e prenunciam a tragédia de 24 de agosto de 1954: "Como se torna revolucionário um governo cuja função é manter a ordem? E se perdermos? Eu serei depois apontado como o responsável, por desfeito, por ambição, quem sabe?" E uma idéia perigosa: "Sinto que só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso.”
Bom tempo, crônica de Valéria del Cueto
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Bom tempoTexto e foto de Valéria del CuetoDepois de um verão para lá de
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