24 de agosto de 2010 - Zero Hora - CLÁUDIO MORENO
No jardim do Éden
As narrativas de viagem sempre nos fascinaram porque foi assim que começou, para todos nós, esta aventura a que chamamos vida. Nascer foi, afinal, nossa primeira viagem ao exterior, e aqui ficaremos enquanto durar o precioso tempo que o destino nos concedeu. Neste mundo agitado, repleto de luzes e ruídos, todos – uns mais, outros menos – guardam, saudosos, a memória profunda do paraíso acolhedor que nos abrigou ao longo de nove meses. Alguns procuram por ele em terras e mares longínquos; outros juram que ele se encontra muito mais perto do que parece.
Talvez não seja coincidência que as duas histórias mais famosas que o Mundo Antigo produziu neste gênero – a expedição dos Argonautas e o retorno de Ulisses – descrevam os dois trajetos opostos. A primeira narra a viagem mitológica de cinquenta jovens heróis, chefiados por Jasão, que deixam a Grécia no rumo da distante Ásia. Seu navio, o lendário Argo, navega para o norte, passa pelo Helesponto (onde, algum tempo depois, seria travada a guerra de Troia) e, depois de mil peripécias, chega ao Mar Negro, inaugurando assim a rota que ligará o Ocidente ao exótico Oriente. É uma jornada para fora, em busca da terra desconhecida que talvez esconda, em algum vale remoto, o verdadeiro jardim do Éden.
Na segunda – a Odisseia, de Homero –, Ulisses segue exatamente o caminho contrário. Terminada a guerra de Troia, ele ruma, com seus navios, para o sul, na direção da Grécia. Faz 10 anos que deixou, a contragosto, o seu pequeno mas amado reino de Ítaca, mas agora conta os dias que faltam para chegar em casa. Os deuses, no entanto, não lhe são favoráveis, e ele leva mais 10 anos nesta viagem de volta, repleta de perigos e armadilhas. O que o mantém vivo é a vontade inquebrantável de rever sua casa e sua família – e o gênio de Homero nos permite compartilhar a emoção de Ulisses quando reconhece a luminosidade inconfundível do céu de Ítaca e reencontra seu filho, sua mulher, seu pai, seu cachorro fiel e até as árvores que tinham plantado para ele quando criança. É uma jornada para dentro, a volta de um guerreiro que, depois de vagar por 20 anos em terra estranha, agora sabe muito bem onde mora a felicidade.
Fico com Ulisses: em minha casa sou feliz. Se não estou nela, estou “fora” – jantei “fora”, passei o dia “fora” –, mas, porta a dentro, estou num universo acolhedor, protetor e confortável. Ela me protege sem me isolar; ela é o meu oásis, e não um lugar de fuga, pois é dela que parto para o mundo, é a ela que retorno para refazer minhas energias. Nela eu me reconheço, porque guarda por toda parte os traços da minha história afetiva; tudo nela me acalma, me tranquiliza – mesa posta, café passado, riso de criança, a voz de minha mulher perguntando se cheguei. Esta é a única utopia possível – e a coisa mais próxima que verei, estou certo, do paraíso que perdemos.
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